FALAR SAÚDE Nº 89: Pediculose

Prof.ª Isabel Cristina
04/04/2016

À primeira vista, poderíamos pensar que “pediculose” se refere a alguma doença ou malformação dos pés, mas não. A pediculose é a infestação da pele, cabelos e pelos do corpo causada por… piolhos.

Rubrica GOVCIC 02 de Março de 20
 

 

  Rubrica
Falar Saúde
04 de abril de 2016

 

 

 

 

 


Se alguém gosta de coçar-se, não nos agradecerá se curarmos a sua comichão.
M.West


Falar Saúde Nº 89
Pediculose


À primeira vista, poderíamos pensar que “pediculose” se refere a alguma doença ou malformação dos pés, mas não. A pediculose é a infestação da pele, cabelos e pelos do corpo causada por… piolhos.

São três as espécies de piolhos que parasitam humanos: “Pediculosis humanus capitis” (couro cabeludo), “Pediculus humanus corporis” (corpo) e “Phthirus pubis” (região púbica e, ocasionalmente, as sobrancelhas e as pestanas). O “Pediculus humanus capitis” é responsável pelo tipo de pediculose mais frequente.

Os piolhos da cabeça são insetos que se caracterizam pelas suas reduzidas dimensões, entre 1 a 4 mm de comprimento, e pela sua necessidade de parasitarem a pele humana para sobreviverem: picam a pele e alimentam-se do sangue que chupam, depositando os seus ovos nas raízes dos cabelos. Quando estes insetos picam a pele, introduzem, juntamente com a sua saliva, uma substância irritante que origina um intenso prurido (comichão) e, caso estejam infetados por outros microrganismos, podem transmitir determinadas doenças infeciosas, como, por exemplo, o tifo. Vive em média 30 dias, a fêmea põe cerca de 10 ovos por dia, as lêndeas, que eclodem entre o 6.º e o 10.º dia, e o piolho jovem torna-se adulto em 9 a 12 dias, adquirindo a capacidade de se reproduzir.

Os piolhos não voam nem saltam, pelo que tem de existir contacto direto para que ocorra contágio. No entanto, movem-se muito rapidamente entre o cabelo e fogem com facilidade quando se aponta alguma luz ou quando nos penteamos, sobretudo com o cabelo seco. Por conseguinte, a melhor maneira de descobrir os piolhos é pentear exaustivamente o cabelo molhado com um pente especial (com pouca distância entre os dentes), uma boa luz e um fundo branco (uma toalha sobre os ombros ou sobre o lavatório). O piolho adulto fêmea tem o tamanho de um grão de sésamo e é de cor negra ou castanha avermelhada. Os ovos localizam-se sobretudo atrás das orelhas ou na zona posterior da cabeça, na nuca. Os “vivos” (com embrião) têm uma cor cinzenta gelatinosa e encontram-se próximos do couro cabeludo. Os “vazios” (lêndeas) são de cor branca e ficam mais afastados da raiz do cabelo. O cabelo cresce cerca de 0,4 mm/dia e o ovo demora aproximadamente 8-10 dias a esvaziar (deixar sair o piolho jovem) e situa-se perto da raiz. Portanto, qualquer ovo situado a mais de 1 cm do couro cabeludo está, quase de certeza, vazio.

A pediculose é, infelizmente, um fenómeno que tem vindo a aumentar, em particular nas escolas e quando a temperatura aumenta. Alguns especialistas apontam como causa os mitos associados a esta situação, nomeadamente que a presença de piolhos é sinónimo de falta de higiene, o que não é verdade. Os piolhos da cabeça gostam de cabeças e pronto! E não querem saber se estão limpas ou sujas (embora, curiosamente, existam estudos que apontam para uma maior suscetibilidade das “cabeças limpas”). É por vergonha que muitos pais não avisam as escolas da descoberta de piolhos nas cabeças dos filhos e cada dia que passa, sem combater o contágio, é mais um passo em frente rumo ao descontrolo da infestação. A infestação por piolhos é a doença mais frequente na infância a seguir à constipação, sendo inclusive mais frequente do que as restantes infeções da infância juntas. Os alvos preferenciais são sobretudo as raparigas entre os 5 e os 11 anos de idade, devido ao contacto interpessoal mais próximo na comunidade escolar.

Apesar do piolho não ser um reconhecido vetor de doença, a sua infestação origina um grande desconforto físico e pode predispor, pelo prurido e consequente escoriação, a sobreinfeção bacteriana das áreas envolvidas. Adicionalmente condiciona desconforto psicológico, dada a conotação negativa inerente ao problema e social, resultante do potencial absentismo escolar e laboral.


Prevenção

  • Aconselhar as crianças a não partilhar objetos tais como pentes, escovas, ganchos, chapéus e peluches, pois os piolhos podem viver por mais de dois dias nesses objetos;

  • Utilizar touca de banho nas piscinas, pois os piolhos são resistentes à água;

  • Não esperar pela comichão! Esta pode aparecer até duas semanas após o contágio. Por isso, torna-se importante inspecionar a cabeça das crianças com alguma regularidade e estar atento sobretudo às zonas mais húmidas e quentes, tais como a nuca e atrás das orelhas.


Tratamento

  1. Aplicar um produto antiparasitário apropriado. As formulações que permitem a aplicação sobre o cabelo seco proporcionam uma maior concentração do tratamento nas zonas infetadas e evitam que a criança fique no banho durante o período do tratamento;

  2. É também aconselhável aplicar o antiparasitário nos restantes membros da família;

  3. Lavar a 60 °C escovas, pentes e todas as peças de roupa que estejam em contacto direto com a cabeça, tais como bonés, toalhas de banho, etc. Se o material não suportar esta temperatura, deve ser fechado num saco de plástico hermético durante 2 semanas (tempo que um ciclo completo dos possíveis piolhos ou dos respetivos ovos demora a completar até morrerem);

  4. Aspirar a casa e o carro, deitando fora o saco do aspirador;

  5. Avisar a escola para alertar outros pais.


Prof.ª Isabel Cristina